Arquitetura escolar como condicionante pedagógica
consequências de inadequações projetuais e construtivas sobre as aulas de Educação Física na educação básica
DOI:
https://doi.org/10.47385/cedvr.2829.7.2026Palavras-chave:
Arquitetura Escolar, Educação Física Escolar, Representações Sociais, Psicologia Social, Cultura CorporalResumo
Este artigo analisa criticamente como a arquitetura escolar e, de maneira particular, a materialidade, a localização, a conservação, a acessibilidade e a carga simbólica atribuída às quadras esportivas participam da constituição dos currículos, dos conteúdos e das experiências corporais legitimadas no âmbito da Educação Física escolar. Parte-se do pressuposto de que o espaço não opera como suporte neutro ou mero requisito técnico para a realização das aulas, mas como dispositivo sociocultural que organiza visibilidades, regula deslocamentos, distribui possibilidades de participação e produz significações acerca dos corpos, das práticas corporais e dos próprios sentidos socialmente atribuídos à Educação Física. O objetivo consiste em compreender de que modo arquiteturas escolares precarizadas, segregadas, insuficientes ou concebidas segundo uma racionalidade exclusivamente esportivizante restringem a diversificação curricular da disciplina e contribuem para a reprodução de hierarquias simbólicas entre estudantes, práticas corporais e saberes escolares. Metodologicamente, desenvolve-se um ensaio teórico de natureza qualitativa, fundamentado na interlocução entre estudos do espaço escolar, Psicologia Social e Teoria das Representações Sociais. A análise evidencia que a centralidade de quadras descobertas, padronizadas, pouco acessíveis e orientadas prioritariamente por marcações de modalidades competitivas tende a instituir o esporte hegemônico como referência quase exclusiva de legitimidade pedagógica, subordinando ou invisibilizando conteúdos como danças, lutas, ginásticas, práticas corporais de aventura, jogos cooperativos, atividades expressivas e experiências corporais inclusivas. Ademais, a precariedade arquitetônica produz efeitos psicossociais que ultrapassam a limitação operacional das aulas, pois pode consolidar representações da Educação Física como componente curricular secundário, recreativo, improvisado e destinado aos estudantes corporalmente mais habilidosos. Conclui-se que a qualificação da arquitetura escolar exige superar perspectivas funcionalistas de infraestrutura, reconhecendo os espaços de Educação Física como territórios de produção de subjetividades, pertencimentos, distinções e desigualdades. Assim, o planejamento arquitetônico e a requalificação das quadras devem ser compreendidos como dimensões indissociáveis de uma política curricular comprometida com a pluralidade da cultura corporal, a inclusão e a democratização efetiva do direito à educação.
Referências
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6023: informação e documentação: referências: elaboração. Rio de Janeiro: ABNT, 2018.
BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007.
BOURDIEU, Pierre. O senso prático. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
BRASIL. Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012. Aprova diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Brasília, DF: Conselho Nacional de Saúde, 2012. Disponível em: <https://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2012/Reso466.pdf>. Acesso em: 8 ago. 2026.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018. Disponível em: <https://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf>. Acesso em: 8 ago. 2026.
BUFFA, Ester; PINTO, Gelson de Almeida. Arquitetura e educação: organização do espaço e propostas pedagógicas dos grupos escolares paulistas, 1893-1971. São Carlos, SP: EdUFSCar, 2002.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: Artes de fazer. 22. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
DAOLIO, Jocimar. Educação física e o conceito de cultura. 3. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2010.
ESCOLANO BENITO, Agustín. A arquitetura como programa: espaço-escola e currículo. In.: VIÑAO FRAGO, Antonio; ESCOLANO BENITO, Agustín. Currículo, espaço e subjetividade: a arquitetura como programa. 2. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. p. 19-57.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 29. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014b.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 42. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014a.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2019.
GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. 9. ed. São Paulo: Perspectiva, 2015.
JODELET, Denise. Representações sociais: um domínio em expansão. In: JODELET, Denise. As representações sociais. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2001. p. 17-44.
LEFEBVRE, Henri. La production de l’espace. L’Homme et la Société, Paris, n. 31-32, p. 15-32, 1974.
MAUSS, Marcel. As técnicas do corpo. In: MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2003. p. 399-422.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2014.
MOSCOVICI, Serge. Representações sociais: investigações em psicologia social. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.
SOJA, Edward W. Geografias pós-modernas: a reafirmação do espaço na teoria social crítica. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.
VIÑAO FRAGO, Antonio; ESCOLANO BENITO, Agustín. Currículo, espaço e subjetividade: a arquitetura como programa. 2. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Congresso de Educação Física de Volta Redonda

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.